Há pouco um político julgava oportuno, pôr no canto os ciganos…
Os ciganos, disse ele, são os párias da nossa sociedade – eles abusam das regras que foram feitas para o bem de nós todos. E isso não é justo, ele acrescentou, porque perante a lei todos são iguais!
Não sei se os ciganos abusem. Mas é verdade, sim senhor, perante a lei todos são iguais. Aliás, é uma verdade tão óbvia, que parece bastante supérflua salientar uma evidência dessas. E ao mesmo tempo todos nós sabemos que o problema com as leis não é criâ-las, mas manté-las. Por isso, na prática algumas pessoas são mais iguais perante a lei que outras. Todos nós sabemos, que a justiça é bastante forte para com os fracos e um bocadinho de nada mais fraca para com os fortes. Todos nós sabemos por exemplo que faz alguma diferença, se se conduz um exemplar da mais recente série BMW ou um calhambeque, quando se encontre parado por homens de lei.
Mais um exemplo?
Quando os médicos – apesar do Juramento de Hipócrates – fazem greve, não há consequências; quando os enfermeiros fazem greve, têm logo falta injustificada.

Resta perceber por que razão, um pólitico deste país julga oportuno alvejar uma minoria demográfica que tão flagrantamente parece desprezar a mais recente série BMW…
Perdão ? As próximas eleicões, dizem vocês ?
De facto esse político não seria o primeiro – nem o último – a perceber que vale a pena criar um inimigo comum para obter lucro político. Morreram dezenas de milhares de ciganos nos campos de exterminação no Dritte Reich do Adolf Hitler. Hoje parecem de novo um dos alvos da escolha.

Mas, se calhar ainda mais preocupante do que tudo isso, penso eu, é que grande parte dos jornalistas nem parece querer denunciar essa lengalenga populista. Até dois protagonistas da TVI deixaram entender que são da mesma opinião, apesar de gritar vezes sem conta ‘Não, não, não somos nós que pensam isso, mas é a maioria silenciosa, ahahah !’
Por que razão acho isso preocupante ?
Por que estou convencido que a saúde duma democracia depende dos seus jornalistas – não dos seus políticos. Os jornalistas são na minha opinião os verdadeiros guardas da consciência nacional.